quinta-feira, 29 de julho de 2010

INTERESSANTE.


Eco nascimento: O ambiente da criança que vai nascer


Uma vez que você compreenda que o ambiente afeta a criança que vai nascer, você vai entender que a paz na Terra começa com as mães. O ambiente inclui a vida antes do nascimento, no ventre, a saúde emocional da mãe e as práticas de nascimento que serão escolhidas ou impostas à mãe.

Vida pré-natal no útero
Nós adquirimos nossos genes na concepção. O ambiente do útero determina os genes que serão expressos e os que serão silenciados, definindo já no útero ao que estamos expostos tanto física como psicologicamente. Sabemos que as substâncias químicas, drogas, álcool e outros atravessam a barreira da placenta e entram no sangue do bebê. Sabemos que as doses toleradas pela mãe são overdoses para o feto, cujo fígado imaturo não consegue desintoxicar o sangue. Um estudo entre recém-nascidos na Flórida, E.U.A., encontrou 187 produtos químicos sintéticos no sangue do cordão umbilical de recém-nascidos.

O trabalho de Bruce Lipton, biólogo celular da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, E.U.A., mostra que o sistema de processamento das informações da célula é a membrana celular, que age como um cérebro minúsculo! O ambiente, que opera através da membrana celular, controla o comportamento e a fisiologia da célula, ligando e desligando os genes. Em sua pesquisa, Dr. Lipton demonstra que o ambiente inclui a mente subconsciente, que ele define como um banco de dados dos hábitos adquiridos, começando com as crenças primárias formadas durante a gravidez que permanecem na infância. Através dessas crenças, nós participamos energicamente da atividade dos nossos genes e fazemos isso por toda a nossa vida sem saber que nossas emoções, pensamentos e estilo de vida influenciam nossa genética e a genética dos nossos bebês.

Michel Odent, obstetra francês, Thomas Verny, MD, entre outros pesquisadores em saúde perinatal, atestam de maneira convincente que o que se forma, à medida que o feto está se desenvolvendo dentro do útero, são amplas e profundas tendências, tais como uma sensação de segurança e auto-estima. A partir dessas tendências, personalidades específicas são desenvolvidas na infância mais tarde. Por exemplo, um bebê pode nascer ansioso e com medo. Mais tarde, essa ansiedade pode gerar a timidez. Ou um bebê pode nascer saudável e descontraído. Uma personalidade otimista e confiante pode ser desenvolvida a partir disso. Esses fatores têm tudo a ver com a nossa sociabilidade e a nossa capacidade de amar.

Saúde emocional da mãe
Nos tempos antigos, a saúde emocional da mulher grávida era responsabilidade de todos na comunidade, porque todos entendiam que a atitude de uma mãe contribuía significativamente para a saúde do seu bebê. Em outras sociedades, era tradicional não deixar uma mulher grávida ouvir más notícias. Além disso, dizem que nunca se deve discutir com uma mulher grávida. Mas se você o faz, dê a ela a última palavra! Nos velhos tempos, no Japão, as mulheres praticavam Taikyo, ou “treinamento do útero”, uma forma de atenção pré-natal à saúde mental e espiritual da mãe. Na minha prática como parteira, peço que meus clientes prestem atenção aos seus pensamentos mais íntimos, que reflitam somente sobre os pensamentos que são encorajadores e pacíficos, dando fim a conversas com pessoas que têm medo do parto. A ciência moderna tem mostrado que se uma mulher grávida está deprimida, ela segrega um elevado nível de cortisona, o que deprime o crescimento do cérebro do feto. Se ela está com medo, ela segrega altos níveis de adrenalina. Sempre que alguém faz, pensa ou diz alguma coisa, esses atos não se encerram por ali. Pelo contrário, deixam marcas no corpo e na mente. Isso deve ser a prioridade número um de todos os envolvidos no cuidado pré-natal (incluindo a própria mãe) para cuidar da saúde emocional de mulheres grávidas.

Práticas do Nascimento
Aqui está um exemplo de uma prática de nascimento que tem efeitos a longo prazo sobre o sistema imunológico do bebê. Nos últimos anos, aprendemos a importância dos microorganismos que vivem no nosso aparelho digestivo ou da flora intestinal para a nossa saúde. Talvez sabendo disso, você coma iogurte com bactérias ativas. Talvez lhe interesse saber que o bebê dentro do útero é estéril, livre de germes. Antecipando o futuro, a natureza fornece para o feto, através da placenta, anticorpos (imunidade) para a maioria dos microorganismos que vivem na superfície do corpo da mãe. Quando o bebê nasce, através da vagina ou por cesariana, imediatamente ele é cercado por enxames de quaisquer microorganismos que são predominantes e conseguem chegar a ele primeiro. Os micróbios que têm acesso ao recém-nascido entram no seu nariz, olhos, boca, sistema digestivo, pulmões e pele. Segundo Odent, a população dos microorganismos do recém-nascido determina 80% da eficácia do sistema imunológico para o resto da vida. Ter um bebê por cesariana evita contato com a vagina e o períneo da mãe, que são abundantemente povoados por microflora. Na sala de cirurgia, o bebê geralmente é levado para perto do rosto da mãe para ela olhar para ele e depois levado depressa até a mesa aquecida para ser limpo e envolto em um cobertor. Pode levar horas até que a pele da mãe fique em contato com a pele do bebê. A essa altura, o bebê foi colonizado por microorganismos predominantes do hospital. É um cenário perfeito para a baixa resistência a doenças e o surgimento de alergias, asma, etc. assim como infecções mais imediatas.

Um índio americano, chefe da tribo Iroquois, certa vez disse: “Em cada deliberação, devemos considerar o impacto sobre a sétima geração, para que nossos netos, bisnetos e tataranetos tenham os mesmos recursos e oportunidades para a saúde que nós desfrutamos agora”.

parto humanizado é opção de gestante que quer maior contato com bebê

Foto: Divulgação Zoom Enfermeira da maternidade do Hospital Universitário da UFSC faz massagem em gestante para aliviar as dores físicas antes de parto normal

Enfermeira da maternidade do Hospital Universitário da UFSC faz massagem em gestante para aliviar as dores físicas antes de parto normal

Karina Gomes

cidades@eband.com.br

Após 12 horas de trabalho de parto, Tereza Cristina de Araújo, 33, estava exausta. O planejado era Isabela nascer em casa, mas a menina que hoje tem 5 anos, veio já na 34ª semana de gestação. “Senti as contrações e, como ela era prematura, teve que nascer no hospital. Mas o parto não deixou de ser normal”, disse.

Na sala de parto do Hospital Santa Catarina, em São Paulo, Cristina tentou várias posições para dar à luz o bebê esperado. No limite do cansaço, sua doula, acompanhante de gestantes que oferece apoio físico e emocional no pré e pós-parto, aconselhou: “vamos ao banheiro. Ficar embaixo do chuveiro vai ajudar na dilatação”. Sozinhas, Ana Cristina Duarte tentava acalmar a gestante recomendando que fizesse exercícios de respiração, enquanto a água quente que caia sobre seu corpo a ajudava a relaxar e acelerar o trabalho de parto.

“Lá, eu fiquei mais tranquila. A Cris me falou, ‘vai, você vai conseguir’. Fiz mais uma força e a cabeça da nenê saiu! Depois disso, os médicos entraram e puxaram minha filha. Ela nasceu ali mesmo, no banheiro do Hospital Santa Catarina! Meu marido cortou o cordão umbilical e a Isabela já ficou no meu colo. Foi muito emocionante”, contou.

A experiência de Tereza reproduz o parto humanizado. “O bebê nasce e já tem um contato imediato com a mãe, e o pai corta o cordão umbilical para já ter o sentimento de vínculo paterno”, explicou a chefe de ginecologia e obstetrícia do Centro de Parto Normal do Hospital de Itapecerica da Serra, Sheila Aparecida da Rocha. “Durante o parto, a gente deixa a paciente escolher a posição mais confortável para que o parto aconteça da forma mais natural. O bebê só é examinado pelo neonatologista após a primeira interação entre mãe e filho. Ele é amamentado e após uma hora de vida recebe medicação e vacinação”.

De acordo com o coordenador da equipe de obstetrícia do Hospital Santa Catarina, Eduardo Watanabe, os partos humanizados são recomendados pela OMS (Organização Mundial da Saúde). “É mais vantajoso para o bebê. Mais de 90% dos partos podem ocorrer em casa e 10% complicam de alguma forma e precisam de intervenção cirúrgica”, disse.

“Nesse tipo de parto, nós temos que assumir as etapas e não passar tudo para o médico. Optei pelo parto natural por causa dos benefícios para o bebê, que me encantaram. Enfrentei meus medos para fazer o bem para o meu filho”, disse Alexandra Swerts Leandro, 37, produtora cultural, grávida de seis meses do segundo filho. O primeiro, Felipe, de dois anos, nasceu após quatro horas de trabalho de parto normal.

A doula de Alexandra, Cristina Palzano Guimarães, 43, fisioterapeuta, explica o seu trabalho. “A doula deve ajudar a gestante a relaxar, com palavras de incentivo e exercícios físicos. Rebolar sobre a bola ajuda a encaixar o bebê. A massagem e bolsa de água quente ajudam a aliviar a dor e a água quente do chuveiro acelera o trabalho de parto”, disse. Para Cristina um dos partos mais emocionantes foi de uma gestante com deficiência visual. “Me sensibilizou muito, porque para ela era muito importante sentir o bebê sobre o seu colo”, contou.

Na maternidade do Hospital Universitário da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que completou 14 anos neste sábado, já foram realizados 22.262 partos normais. “Nós procuramos o resgate da humanização do parto para a mulher ser protagonista do processo. Ela faz o próprio parto”, explicou Eli Camargo Siebert, chefe do serviço de obstetrícia da maternidade. “Também usamos métodos não-farmacológicos para aliviar a dor, como a bola embaixo do chuveiro e massagem [veja na foto acima]”.

Nos últimos três meses de gestação, o casal tem acompanhamento da equipe e faz visitas à unidade para se familiarizar com o ambiente. “Nesse período, o casal faz um cronograma e o planejamento de parto. Fazemos encontro de casais grávidos e depois há encontros dos pais e os bebês que nasceram aqui na maternidade”, disse Siebert. “O pai pode acompanhar o parto e a participação dele é muito emocionante para toda a equipe”.

Casas de parto

Em São Paulo, hospitais estaduais têm unidades anexas integrados ao SUS (Sistema Único de Saúde) para a realização de partos humanizados, chamadas casas de parto. Na Casa de Maria, anexa ao Hospital Santa Marcelina, no Itaim Paulista, são realizados em média 30 a 40 partos por mês. “A procura é baixa por falta de divulgação e pouca cultura de parto normal entre os profissionais de saúde”, afirmou o diretor técnico de obstetrícia, Marcos Wmawo.

Com base no modelo das casas de parto da Europa, Canadá e Japão, a Casa de Maria foi estruturada para que a mulher participar do parto e a família estar presente. De acordo com Wmawo, as pacientes são mulheres de classe média alta, bem informadas e com acesso à Internet. As equipes são formadas por enfermeiras obstetrícias, neonatologistas e pediatras.

As gestantes atendidas nas casas de parto são saudáveis e não apresentam fator de risco durante a gravidez. “A questão que envolve as casas de parto é a segurança, por isso muitas estão associadas ao hospital”, disse Eduardo Watanabe, obstetra do Hospital Santa Catarina. No Brasil, há resistência ao parto normal por um problema cultural”, explicou.

“A equipe está preparada para lidar com complicações médicas. A transferência para o hospital é questão de minutos”, afirmou Marcos Wmawo, da Casa de Maria. “A cultura da cesárea existe por comodidade. Muitas pacientes não questionam seus médicos se, de fato, não há a possibilidade de fazer parto normal”.

Rede particular

Os hospitais privados estão se adaptando para realizar partos humanizados. Os hospitais Santa Catarina, Albert Einstein, São Luís e ProMatre, todos em São Paulo, criaram salas adaptadas. “O aspecto da sala procura mimetizar o ambiente doméstico e se afasta do ambiente de uma sala cirúrgica. A iluminação é mais baixa e, no banheiro, tem uma banheira de hidromassagem”, explicou Watanabe. “O casal faz o planejamento do parto. A gestante pode estar acompanhada de uma doula desde que o hospital autorize”.

Mas as mães que não podem ter o bebê por parto normal, pode marcar uma cesárea natural. “Apesar de ser no centro cirúrgico, o ambiente da sala é mais humanizado, com música estilo new wave e iluminação baixa. Assim que nasce, o bebê fica no colo da mãe para ser amamentado e depois é colocado em um balde água aquecida com toda a equipe em silêncio para lembrar a vida uterina”.

PLANO DE PARTO.


Durante o pré-natal na Casa de Parto as mulheres são preparadas e trocam experiências nas oficinas, que são espaços educativos para a integração entre as gestantes e os profissionais, para o momento do parto. Ao final da gestação a gestante é estimulada a elaborar o seu plano de parto. O Plano de Parto vem a ser a idealização do que a gestante gostaria que acontecesse durante a sua estada na Casa de Parto. Costumamos dizer que se assemelha à programação de uma viagem. Quando sonhamos em viajar: primeiro escolhemos o local a ser visitado, o meio de locomoção, os acompanhantes dessa viagem, o vestuário, os objetos de uso pessoal,o roteiro, enfim tudo o que gostaríamos que acontecesse e que torna-se a nossa viagem a mais prazerosa possível. Assim, é o Plano de Parto. A gestante constrói de maneira livre, individualizada e criativa o seu planejamento. Na maioria das vezes, esse desejo é colocado em uma folha de papel, adornado com adesivos, pinturas, ou mesmo digitado. Existem Planos de Parto de infinitos modos, uns bem simples outros bem trabalhados. Mas o importante é que a mulher comece a pensar e idealizar o seu momento. Algumas solicitam uma música de sua preferência; um aroma; um ritual religioso, ou mesmo um amuleto. Escolhem a posição e o local de nascimento: cócoras, lateral, água, verticalizada. Nomeia as pessoas que a acompanharão, quem fará o corte do cordão umbilical, se desejam ser fotografadas ou filmadas. Enfim, é incentivado pela equipe da Casa de Parto o maior número de informações para que esse momento seja de celebração e de singularidade. No momento da internação esse Plano de Parto é lido pela equipe de plantão e dentro do possível é atendido em sua totalidade. Obviamente que este Plano não é rígido e pode ser alterado a qualquer momento pela cliente, e, caso algum item não possa ser atendido é feito uma pactuação na hora de como poderemos cuidar com segurança, e ao mesmo tempo com respeito ao desejo da mulher.

CASAS DE PARTO;

Somos um grupo de pessoas constituído de mulheres da sociedade civil, homens, profissionais de saúde ou não, mas que temos em comum a luta pelo direito à informação e escolha. Atualmente, falar em possibilidades de escolha no momento da parturição é tudo de bom! Vivenciamos momentos de muita violência física, psicológica e institucional às mulheres na hora do parto, um momento tão singular e marcante para a sua vida, de seu bebê e de toda a sua família. Ter a possibilidade de reverter esta realidade é por demais excitante para a sociedade brasileira. As Casas de Parto têm como propósito oferecer às mulheres e suas famílias a possibilidade de optarem por um parto mais individualizado, ou seja, centrado em suas expectativas e desejos. Resgatar a vivência do parto fisiológico, com a participação ativa da mulher, com a inclusão de seu companheiro, de seus filhos menores, favorecendo a celebração da vida. Por esses motivos aqui citados e na condição de acompanhantes e observadores do processo de mudança é prazeroso perceber que muito pode ser feito, utilizando recursos disponíveis e na maioria das vezes de pouca complexidade,porém com resultados de excelência para as gestantes sem risco gestacional. Assim nos reunimos e resolvemos criar este site como um espaço de reflexão, informação e divulgação de tudo o que vem acontecendo nas Casas de Parto no Brasil.


CASAS DE PARTOO ambiente como ferramenta facilitadora no trabalho de parto e parto Muitos aspectos do ambiente no acompanhamento do trabalho de pa

O ambiente como ferramenta facilitadora no trabalho de parto e parto

Muitos aspectos do ambiente no acompanhamento do trabalho de parto podem refletir as causas de estresse materno ocasionando aumento no número de horas em trabalho de parto, insegurança e resultados perinatais desfavoráveis. É sabido que mulheres que são acompanhadas em trabalho de parto em ambiente hospitalar sofrem um número de intervenções técnicas e invasivas infinitamente maior do que aquelas acompanhadas em ambiente não hospitalar. A atmosfera amistosa e descontraída de ambientes não hospitalares permite que a mulher e sua família vivenciem a experiência do parto como um processo natural e fisiológico, livre de rituais que não privilegiam a individualidade e desejo de cada mulher. Nas Casas de Parto, esse ambiente é construído a partir de uma decoração alegre, suave e que lembra muito uma casa comum. A começar pelas cores das paredes, música ambiente, brinquedos coloridos e cheiro de comida caseira exalando pela casa. Os profissionais recebem a clientela de maneira acolhedora, chamando a mulher pelo seu nome, iniciando um primeiro contato de forma a criar um vínculo. As consultas transcorrem da maneira mais informal possível para que se possa conhecer e identificar tudo o que possa subsidiar a construção do perfil de cada cliente. Uma característica central da casa de parto é o estímulo à presença do acompanhante, em todas as fases de atendimento, entendendo que esta pessoa da escolha da mulher pode oferecer apoio emocional e colaborar nos momentos de ansiedade, fortalecer vínculos afetivos e ajudar no entendimento da construção de um modelo de assistência ao parto que privilegia a família. Enkim (2000) relata que cinco estudos controlados compararam os efeitos do trabalho de parto e parto em instituições semelhantes às casas, isto é, casa de parto, ou centro hospitalares de parto,aos efeitos de uma enfermaria hospitalar convencional. Mais de 8000 mulheres participaram desses estudos. As mulheres que optaram pelo trabalho de parto e parto em casa de parto usaram em média, menos medicamentos analgésicos, menor probabilidade de uso de ocitocina, e elas tiveram uma chance ligeiramente maior de ficarem muito satisfeitas com sua experiência de parto

A VIDA FOI CRIADA POR DEUS PAI E PRECISAMOS ACREDITAR MAIS E ESCLARECER A NATUREZA É SABIA.

A “bobagem” do parto humanizado

Posted on 11 maio 2010

Texto de Renata Matteoni no blog Pipocando.

http://rematteoni.wordpress.com/2010/05/10/a-bobagem-do-parto-humanizado/

Esses dias o ilustríssimo senhor Alexandre Garcia, jornalista das antigas da Rede Globo e portanto um formador de opinião, fez uma crítica preconceituosa e sem qualquer embasamento sobre as políticas públicas do Ministério da Saúde em relação às gestantes HIV positivas e à humanização do parto.

Pra quem não ouviu nem leu a respeito, em resumo, Alexandre Garcia chama o parto humanizado de “bobagem” e de “maluquice” o fato de uma mulher HIV positiva engravidar.

Ambas as colocações, além de denotar total ingorância a respeito de políticas públicas, da lei e de direitos humanos expressamente reconhecidos pela nossa Constituição, são lamentavelmente preconceituosas e desrespeitosas. Obviamente causaram assombro e geraram repúdio por parte dos grupos ativistas.

É da primeira delas que quero falar. Em matéria de humanização do parto avançamos muito no Brasil e a atuação do Ministério da Saúde tem sido exemplar. Apesar de ainda causar reações preconceituosas, a bandeira da humanização já conta com diversos grupos ativistas bem organizados e atualmente com estudos científicos comprovando os vários benefícios da humanização, que felizmente se multiplicam exponencialmente.

A humanização é uma questão de saúde e segurança pública – hoje sabe-se que nossos genes sofrem influencia do ambiente, e que os períodos críticos para tanto são o pré-natal, o nascimento e as primeiras horas de vida. Em outras palavras, a forma como somos gerados e chegamos ao mundo pode ser determinante para nossa saúde física e emocional e para definir tendências comportamentais.

Diante da seriedade do tema, fico assustada não apenas com o fato de o Sr. Alexandre Garcia considerar a humanização uma “bobagem”, mas por colocar essa ideia da forma desrespeitosa como colcou, e ainda por cima através de uma grande veículo de comunicação. É irresponsável da parte um formador de opinião falar a respeito de algo que desconhece com base exclusivamente em preconceito.

Reproduzo a carta aberta de repúdio redigida pela Parto do Princípio, em que se questiona: “quem está brincando com a saúde?” Seria muito interessante ouvir uma reposta, não? Liberdade pressupõe responsabilidade, senhor jornalista.

Carta Aberta a Alexandre Garcia – Considerações sobre a “bobagem” do Parto Humanizado
Quem está brincando com a saúde?

Caro Sr. Alexandre Garcia,

Somos mulheres ativistas da Rede Parto do Princípio, uma rede nacional, com mais de 100 mulheres por todo o Brasil, que luta para que toda mulher possa ter uma maternidade consciente e ativa através de informação adequada e embasada cientificamente sobre gestação, parto e nascimento.

É com profundo pesar que recebemos em pleno dia das mães uma fala cheia de preconceitos sobre a maternidade em um veículo de comunicação pública.

Diante de sua fala, nota-se o profundo desconhecimento das políticas de controle de infecção hospitalar, como também da legislação que garante a toda mulher o direito à presença de um acompanhante de sua livre escolha no pré-parto, parto e pós-parto imediato. Não é só uma “bobagem” do Ministério da Saúde. É lei (Lei Federal n° 11.108 de 2005). Uma lei que vem sendo sumariamente descumprida por todo o país.

Transcrição realizada a partir do áudio disponível em:

http://cbn.globoradio.globo.com/colunas/mais-brasilia/MAIS-BRASILIA.htm

[...] eu tô criticando essa bobagem do Ministério da Saúde de parto humanizado… será que vão deixar entrar um pai na sala cirúrgica pra infectar a sala cirúrgica? O pai barbudo, cabeludo, bêbado, sei lá o quê, mas enfim… hã… vestido com… com poeira da rua numa sala cirúrgica? Isso é um absurdo. Ah, mas é o parto de cócoras… tudo bem, peça para sua mulher fazer um parto de cócoras pra ver o que vai acontecer com o joelhos dela, não é índia, nã… vão… vão acabar… É um sofrimento. Ah, porque as cesárias… eu disse olha… que ele mesmo concorda que o… o serviço público as cesárias só é feita [sic] em último caso… é parto normal normalmente… não precisa ficar anunciando que o hospital do Gama vai ter isso [...]“

Existem normas de controle de infecção hospitalar que devem ser cumpridas por toda a equipe de saúde, pelos pacientes e por seus acompanhantes. Independente se são “cabeludos”, “carecas” ou “barbudos”. Seguidas essas normas, não há porque restringir o acesso do acompanhante. O direito da mulher não pode ser violado a partir de discriminação, de preconceito.

Várias pesquisas comprovaram que a presença do acompanhante no parto proporciona uma série de benefícios como: maior sentimento de confiança, aumento no índice de amamentação, diminuição do tempo de trabalho de parto, menor necessidade de parto cirúrgico, menor necessidade de medicação, menor necessidade de analgesia, menores índices de escores de Apgar abaixo de 7, menor necessidade de parto instrumental, menores taxas de dor, pânico e exaustão, entre vários outros benefícios. Diante desses indícios, a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza, desde 1996, a presença de um acompanhante para a parturiente.

E isso não é bobagem. São pesquisas científicas.

Hoje, existe a possibilidade da mulher escolher a melhor posição para o parto. De posse de evidências científicas, muitos profissionais não mais recomendam uma única posição, mas permitem que a mulher encontre a posição mais confortável para dar à luz. Para a posição de “cócoras”, que é como são chamadas algumas posições verticalizadas, existem apoios e banquetas. Há também muitas mulheres que conseguem ficar de cócoras sem comprometer os joelhos, mesmo as não-indígenas.

“[...] O ministério da saúde não fez só isso não. O Ministério da Saúde tá estimulando agora pessoa com HIV a engravidar. Eu duvido que o Ministério da Saúde vá fazer uma… uma cesária pela terceira vez numa mulher com HIV e respingar sangue nele pra ver o que vai acontecer. É uma… é uma maluquice. Tão fazendo uma brincadeira com a saúde… Tá lá escrito na instituição a saúde é direito de todos e dever do Estado. O Estado não está cumprindo seus deveres com a saúde… e os problemas são de gestão, são administrativos.[...]“

Atualmente, diante de assistência médica adequada, nós mulheres podemos ter uma gestação e um parto mais seguros tanto para nós, quanto para os bebês. Inclusive as mulheres HIV positivas. Existem protocolos, embasados cientificamente, para os atendimentos às soro-positivas que evitam a transmissão vertical do HIV. Todos nós temos direito à reprodução. Existem também protocolos de rotinas que protegem a equipe de saúde para que não tenham contato com sangue ou secreções; e de providências caso haja algum acidente. E isso não é maluquice. É biossegurança.

E se o Estado está tomando providências para que o pai mais “barbudo” possa acompanhar sua esposa no nascimento de seu filho, e para que pessoas como eu, como os soro positivos e até como você possam ter fihos e netos em segurança, isso não é “bobagem”, isso é dever do Estado.

Mas se o senhor ainda tiver críticas à “bobagem” do Parto Humanizado ou aos partos das mulheres soro positivas, por favor, embase suas considerações com argumentos fundamentados cientificamente. Porque disparar informações incorretas em meios de comunicação pública é anti-ético e um descalabro. E é vergonhoso.

Referências Bibliográficas:

BRÜGGEMANN, O. M.; PARPINELLI, M. A.; OSIS, M. J. D. Evidências sobre o suporte durante o trabalho de parto/parto: uma revisão da literatura. Cadernos de Saúde Pública, 21 (5): 1316-1327, Rio de Janeiro, 2005.

DRAPER, J. Whose welfare in the labour room? A discussion of the increasing trend of fathers’ birth attendance. Midwifery 13, 132-138, 1997.

GUNGOR, I.; BEJI, N. K. Effects of Fathers’ Attendance to Labor and Delivery on the Experience of Childbirth in Turkey. Western Journal of Nursing Research, vol 29; March, 2007.

KLAUS, M. H.; KLAUS, P. H. Seu Surpreendente Recém-Nascido. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Portaria MS/GM nº 2.616 de 12 de maio de 1998. Diário Oficial da União, 13 de maio de 1998.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolo para prevenção de transmissão vertical de HIV e sífilis. Secretaria de Vigilância em Saúde, Programa Nacional de DST e Aids. Brasília, Ministério da Saúde, 2006.

NAKANO, A. M. S.; SILVA, L. A.; BELEZA, A. C. S.; STEFANELLO, J.; GOMES, F. A. O suporte durante o processo de parturição: a visão do acompanhante. Acta Paul Enferm 20(2): 131-7, 2007.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, Maternidade Segura, assistência ao parto normal: um guia prático. Genebra, 1996.

STORTI, J. P. L. O papel do acompanhante no trabalho de parto e parto: expectativas e vivências do casal. Dissertação (Mestrado em Enfermagem em Saúde Pública) – Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2004.

ZHANG, J.; BERNASKO, J. W.; LEYBOVICH, E.; FAHS, M.; HATCH, M. C. Continuous labor support from labor attendant for primiparous woman: A meta-analysis. Obstetrics & Gynecology vol. 88 nº 4 (2), 1996.

LUZ ..........MUITA .....LUZ.


Dar à luz sem sentir dor
Por Carolina Cantarino

A anestesia obstétrica é um assunto polêmico desde suas primeiras utilizações ainda no século XIX. Polêmico porque associado a uma dor tida como única e diferente de todas as outras: a dor do parto. Na atualidade, uma série de movimentos sociais, baseados na idéia da humanização do parto, lutam contra os elevados índices de cesáreas realizadas no mundo todo e defendem o parto vaginal, além de suas modalidades alternativas (parto de cócocas, parto na água). É nessa seara – o parto “natural” - que a anestesia gera controvérsias: a dor é inerente ao parto? É necessário sofrê-la? Alguns rejeitam o uso da anestesia durante o trabalho de parto e o parto vaginal. Para outros, a humanização do parto pode significar alívio da dor através da administração da anestesia peridural.

“O certo é que, uma boa experiência de parto significa, dentre outras coisas, lidar com a dor normal inerente ao processo de abertura do cólo do útero e aliviar ou eliminar as dores desnecessárias, provenientes de tensões, medos, ambientes impróprios, manobras médicas discutíveis ou presença de pessoas indesejáveis”, definem as Amigas do Parto, site criado para tratar da assistência ao parto, que integra uma rede formada por uma série de outras iniciativas semelhantes como Parto Natural, Nosso Parto, Rehuna, Mães Ponderadas, etc.

Primórdios da polêmica

A utilização da anestesia durante o parto normal é controversa desde sua origem. A história da medicina registra que a primeira aplicação anestésica durante um parto normal foi realizada pelo médico inglês James Young Simpson em 1847. Segundo Donald Caton, professor do Departamento de Anestesiologia da Universidade da Flórida, controvérsias surgiram não só por razões religiosas mas porque não havia consenso entre os médicos sobre a segurança do procedimento, baseado na inalação de éter sulfúrico. Eles temiam os possíveis efeitos do éter sobre a criança, sobre as contrações uterinas (que, diminuídas, poderiam prejudicar o andamento do trabalho de parto) e a ocorrência de hemorragias e infecção.

Em artigo publicado no International Journal of Obstetric Anesthesia, Caton lembra que, a despeito da resistência no interior da medicina, a prática da anestesia durante o parto normal acabou sendo adotada, principalmente, pelas mulheres da elite inglesa. A própria rainha Vitória utilizou a anestesia em seu oitavo parto, realizado em 1853. O incipiente movimento feminista, que incluía na sua pauta de reivindicações, além do direito ao voto, maiores cuidados durante o parto (incluindo-se, vale lembrar, a hospitalização, já que, até então, o parto acontecia em casa e era realizado por parteiras), abraçou o uso da anestesia como sinal de aperfeiçoamento e melhoria nos cuidados médicos.

A medicalização do parto foi ganhando intensidade. No período entre-guerras, além da anestesia, práticas como o fórceps e a episiotomia (corte no períneo) eram rotineiras nos hospitais, assim como o uso de analgésicos e tranqüilizantes durante o trabalho de parto. “Depois da Segunda Guerra Mundial, contudo, o público desenvolveu uma crescente descrença em relação a procedimentos médicos invasivos e drogas associadas a problemas congênitos como o dietilstibestrol, a talidomida e a radiação iônica”, lembra Canon. Nesse contexto é que o método de outro médico britânico começa a ganhar espaço: em 1954, Grantly Dick-Read publica o livro Childbirth without fear (Nascimento sem medo) e passa a defender a realização de partos naturais sem qualquer anestesia.

Mas o que seria um “parto natural”? Segundo Dick-Read, do ponto de vista fisiológico a dor não pode ser considerada como “natural” ou constitutiva do parto. Segundo ele, as “mulheres primitivas” não sofriam durante o parto. A dor que as mulheres ocidentais costumam experimentar seria devido ao medo e à própria influência judaico-cristã da cultura, que associa o sexo ao pecado e, assim, a dor do nascimento à punição. Esse quadro de medo e ansiedade é que ativaria, segundo Dick-Read, reações nervosas, provocando o aumento das contrações uterinas e da dor.

“Como Simpson, Dick-Read apareceu diretamente para o público, sobre quem ele teve maior influência. Como Simpson, ele teve bem menos impacto entre os médicos”, afirma Caton, ao lembrar que muitos deles questionaram as bases científicas de sua teoria. Um dos que a contestaram foi o médico francês Fernand Lamaze que, a partir de técnicas baseadas na respiração e no relaxamento aprendidas com obstetras soviéticos, também defendia a realização do parto natural. Dick-Read, por sua vez, acusava Lamaze de ter roubados suas idéias e as distorcido.

A contenda entre os dois obstetras tornou-se, então, pública e, no contexto da Guerra Fria, a rivalidade entre o método inglês e o método russo extrapolou para o campo da política: em 1957, o Papa Pio XII resolve arbitrar a disputa e faz um discurso sobre o parto natural. Ele afirma que a dor está associada ao parto desde tempos imemoriais e que a Igreja não apresenta nenhuma objeção ao uso da anestesia. Pio XII contraria, assim, duas posições defendidas por Dick-Read, e diz que, pessoalmente, nota pouca diferença entre o método do médico inglês e o de Lamaze. Mas, por fim, afirma que, para as gestantes comprometidas com os valores cristãos, o melhor método é o inglês, por “ser menos materialista”.

Anestesia e humanização do parto

Feministas do século XIX lutaram pela extensão do uso da anestesia na obstetrícia numa época em que os médicos temiam seus possíveis efeitos durante o trabalho de parto e o parto vaginal. Um século depois, com novas técnicas e procedimentos anestésicos, muitas mulheres mudaram suas opiniões sobre o uso dessas drogas.

Ativistas defensoras do parto natural não abordam a questão da anestesia obstétrica e seus efeitos como um problema exclusivamente médico. “Por exemplo, elas não estão interessadas nos efeitos da anestesia no metabolismo do oxigênio do neonato ou na porcentagem de drogas que atravessam a placenta, alguns do problemas que concernem aos clínicos. Elas estão interessadas nos aspectos pessoais e sociais do parto: nos modos como a experiência da mulher durante o parto pode afetar as interações subsequentes com a família”, lembra Donald Caton, o que traz desafios para a própria relação entre médicos e parturientes.

A humanização do parto é tida, geralmente, pelos profissionais de saúde como sinônimo de acesso a certos procedimentos – como a própria anestesia de parto normal – antes restritos às pacientes dos hospitais e maternidades privados. A humanização, assim, passa a ser vista como acesso à anestesia peridural. A anestesia é legalmente prevista por portaria do Ministério da Saúde desde 1998 e deve ser paga pelo SUS. Mas, segundo Carmen Diniz, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, “na prática a anestesia é inviabilizada pois o pagamento do procedimento 'parto' foi aumentado de valor, sem incluir honorários específicos para o anestesista”.

Diniz afirma que essa associação da anestesia peridural com a humanização do parto diz respeito à própria tradição hipocrática da medicina que, baseada na idéia de beneficência, vê a aplicação da anestesia como uma defesa das mulheres e de seu direito de não sentir dor. A assistência ao parto sem anestesia é associada à pobreza técnica do médico e à carência de recursos do hospital, que tem a obrigação de oferecer anestesia a todas as suas pacientes. “Então, a gente praticamente só conta com anestesista quando é cesárea. Raramente fazemos uma peridural humanitária, quando a paciente, às vezes uma adolescente, está muito descompensada. Já no consultório, fazemos analgesia em praticamente 100% dos partos vaginais”, afirma um médico entrevistado por Diniz.

A pesquisadora lembra que a dor do parto muitas vezes é amplificada por rotinas médicas como a imobilização, a manobra de Kristeller (pressão feita sobre o estômago supostamente para auxiliar o nascimento) e a episiotomia, entre outras práticas clínicas. Sendo assim, a experiência do parto, tanto para os profissionais de saúde como para a parturiente, é muito diferente com e sem a aplicação da anestesia peridural. “E suportar a dor da paciente, provocada pelos procedimentos que ele médico pratica, pode ser uma experiência muito penosa também para o profissional. A ponto de, em um estudo recente, a disponibilidade da anestesia peridural ser considerada pelos médicos o fator mais importante na lista de boas condições de trabalho do obstetra”, lembra Diniz, num artigo publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva.

Disputa pela descoberta da anestesia

A primeira modalidade de anestesia com aplicação mais recorrente na medicina obstétrica foi a anestesia inalatória. Drogas como a morfina foram utilizadas com a intenção de promover um apagamento da experiência do parto, associado, então, a muito sofrimento e violência para a mulher. As mulheres davam à luz completamente inconscientes. Muitas eram amarradas às camas, pois sob efeito sedativo, se debatiam. Na década de 1920, Fernando Magalhães, considerado o pai da obstetrícia brasileira, foi um dos adeptos do chamado parto inconsciente.

A polêmica aplicação da anestesia obstétrica confunde-se, assim, com a própria história da anestesia. A descoberta da anestesia inalatória é oficialmente atribuída a William Thomas Green Morton, estudante da Faculdade de Medicina de Harvard que, em 1846, demonstrou publicamente o uso do éter sulfúrico como anestesia geral para a cirurgia. Quatro anos antes de Morton, Crawford Williamson Long já havia realizado pequenas cirurgias e partos com a utilização da inalação de éter como anestésico.

Antes de Long, Paracelso (1540) e Faraday (1818), dentre outros, já haviam observado a ação anestésica do éter. Mas nenhum deles o havia utilizado durante um ato cirúrgico. “Com o crescente conhecimento da fisiologia respiratória e a descoberta de novos gases e vapores, abriu-se caminho para o uso da via inalatória para a administração de drogas. Apesar de, nesse tempo, já se conhecerem relatos de injeções de drogas, sangue e cristalóide por via venosa em animais, a agulha oca ainda não havia sido inventada”, lembram Ricardo Maia e Cláudia Fernandes, em artigo sobre o surgimento da anestesia inalatória.

A inalação de óxido nitroso, conhecido como gás hilariante, foi um entretenimento circence comum no início do século XIX durante as chamadas laughing gas parties. Horace Wells, um dentista norte-americano, ao participar de uma dessas apresentações, notou que um dos participantes havia ferido a perna, mas, sob o efeito do gás, não sentia dor. Contatou o dono do circo e realizou experiências, em 1844, em seu consultório, com o óxido nitroso, outro método inalatório que também passou a ser utilizado.

Diante de tantas descobertas, quase simultâneas, sobre a anestesia inalatória, a prioridade da descoberta passou a ser disputada entre Long, Wells, Morton e seu professor em Harvard, Jackson, que também entrou na briga, que passou a ser arbitrada pelo Congresso americano. Existiram outras controvérsias. Apesar de comprovado os efeitos anestésicos do éter, Long, por exemplo, interrompeu suas experiências ao sofrer a perseguição dos moradores da pequena cidade onde morava (no estado da Geórgia), que consideravam o éter como uma “droga diabólica”. Privadamente, Long prosseguiu e administrou éter à sua esposa durante o seu segundo parto em 1845. É, por isso, considerado também um dos precursores da anestesia obstétrica.